Disclaimer

Nunca soube fazer poemas de amor.
Não sei escrever bilhetes com rosas, nem fazer serenatas
debaixo da lua. Nunca gostei de promessas,
bombons com embrulho vermelho,
corações desenhados em árvores,
mentiras suaves, amores-perfeitos.

Gosto do mar. Fogueira crepitando na brisa,
marulho de onda, alguém cantando
e um número simplesmente inacreditável de estrelas
como testemunhas únicas de qualquer coisa
que jamais se repetirá. Gosto de coisas
irredutíveis. Amor? Palavra.
Não posso. Não sei. Nunca soube.

Oriki

Brisa que afaga as copas das mangueiras encarapitadas na falésia
no lado de lá das águas à espera de que se cumpra o tempo
relógio diário dos peixes fulgor dos corais prata vermelha
virás, já sabemos, sol a pino
beira d’água sob o fresco das mangas esperamos
o cheiro salgado anuncia a queimar rostos, canoas, pintura das casas
da boca da barra e além teu profundo respirar
viração
vens nas chamas frias nervosas das pequenas ondas
que fazem girar de novo um mundo enlanguescido
que a manhã encontrara frio e sobre o qual passara a acumular calores
terras areias regatos que pedem finalmente: vento! e vens.

Percorrer teus desígnios, resistir-te
teus dedos ligeiros afagam o mar arrepio frêmito
aflorar-te, molhar a mão nos teus salgados cachos líquidos
no barandar equilíbrio impossível e desde já vencido
cambar-te afinal, e recomeçar de outra parte
incontornável insustentável direção do caminho reto
inútil caminho reto que te perde em vez de alcançar
flecha que voa e te encontra sempre onde já não estás
própria alma da flecha vento chama
estás na caverna quente que pulsa no centro
do corpo no meio do corpo na beira do corpo
e espalha vermelho sobre o verde das folhas
búfalo-peixe-fruto carne do mundo mãe do fogo
dai-nos agora e sempre e mais e quando
fazendo-nos crer
crianças que somos
que por artes próprias te rastreamos
e perseguimos e lutamos e vencemos
sem saber por que brincas de alvo se é teu o sopro
se reconduzes a flecha de volta a ti mesma
e irrompes, e ris, e reinas, e és senhora, e imensa, Oyá.

Prova dos nove

Cem risos, mil olhares:
dez convites
– nove foras, nada.

Inferno astral

É arriscar demais olhar nos olhos de um touro.
O touro, por dentro,
é um labirinto inextrincável.
É perder-se. Fio nenhum.
O touro, por dentro, é gato:
o touro é um gato pelo avesso.
Milênios de sacrifícios te acostumaram mal.
Mansidão, fúria, mansa fúria...
É arriscar demais olhar nos olhos de um touro.
Quem é esta por detrás? Ou são várias?
Jamais te decifrarei: devora-me,
se te apraz.

Enuma elish

Quando, no alto, eles ouviram
o grito da cidade, que corria
enquanto o sol lentamente
ia sumindo por detrás dos edifícios,
quando ouviram a voz do metal
entre as buzinas, os faróis, os carros,
os tambores aprisionados na carne
daqueles que não os supunham
(e nem poderiam supô-los, ocultos
como estavam entre sombras e folhagens),
seus olhos tornaram-se em espelhos
por onde o ruído insuportável
deste mundo refletia. E ele lhe mostrou
a dor, e talvez naquele momento
a tenha amado, ou apenas percebido
o quanto a havia amado
desde a primeira vez que ela
atravessara o seu caminho
com questões, com fúria, com cachos em fogo
e um certo jeito de pender a cabeça
e levantar as sobrancelhas, e bem
cuidadosamente ir desmontando, peça
por peça, as defesas que ele tinha erguido.
Como no momento em que ela havia dito:
– Então me beija! – e ele a beijara, embora
já soubesse desde então que aquele beijo
não resolvia nada: o mundo seguia
sua rota indiferente ao desafio.
Mas talvez fosse essa a beleza exata
daquele gesto perdido em meio às mesas
de algum bar que não mudara – ou talvez, sim,
mudara (sem mudar) no instante preciso
em que o gosto de tudo o que ela dizia
impregnou cada pequena parte dele.
E então, por algum motivo, rompeu-se:
o frágil encantamento que os havia
de tal maneira envolvido que ele não
sabia mais se tinham sido uma obra sua
as conjuras que o fizeram, ou, ao contrário,
as palavras que ela tinha dito a ele
é que haviam-no forjado novamente
naquele ser que olhava, e desejava, e ardia.
E desde então eles fingiram que este mundo
ainda era o mesmo mundo que existia
antes que eles se beijassem e se olhassem
bem dentro nos olhos um do outro, e vissem
insondáveis e diversos mundos, plenos
do gosto que lhes ficou na boca – fundo,
muito fundo, mais fundo
que o silêncio que se pede ao mundo
– o profundo silêncio
que se pede ao mundo,
a cada novo dia.

Mise en scene

Primeiro eu vou na tua casa, te rondo
com olhares esguios e observações desprovidas
de significado, ouvimos um pouco de música.
No cinema os olhos fixam beijos
de celulose, os tais que nos velam o sono
– cínico. Brincamos de amigos, te rondo
com os dedos famintos – você finge,
depois se lança sobre mim como
um míssil teleguiado, exata e minúcia.
Na festa,
todos os cantos são nossos, te rondo
com a língua com os olhos com fotos
cores vôos gritos motos dentes setas etc.
Rio. Da fumaça do teu cigarro saem
poses, gestos de rua, versos tardios, alertas.
Mas aceitei o desafio. Aqui estou,
taquicárdico e nu frente aos palanques
de onde gritarão microfones e farão calar
outras bandeiras e baionetas.
Aqui estou.
Não serei venda ou bruma antes que amanheça.
Serei talvez fogueira, insuspeitada,
consumida por estrelas que morreram
há bilhões de anos. Você, granada,
lança, apocalipse. Você, estilhaçada
em meio aos campos metálicos da vida
e escorrendo em lágrimas vazadas do neon
com que vibrar nossos nervos de aço
e voá-los em disparada.
Farei meu
o chão que eu piso. Quando nada
farei meu teu corpo, que me entra
por todos os sentidos e mais uns outros sete
ou oito. Mas dentro em pouco
tudo isso é só fumaça,
e o teu cigarro num canto da sala pasma
como a um grito de alarma.
Então largo no chão teu cadáver
ainda um pouco aceso;
vou embora, me jogo do viaduto,
e talvez ainda persiga por muito tempo
o teu fantasma.

A dança dos vampiros

Prelúdio

Assim como quem joga conversa fora
vou jogando noite afora
pelas persianas do sonho
palavras que eu colho do chão.
Nada de mais, não, é só
um troço, um treco,
um trapo, um retrato de um amor
perdido
nos rabiscos de um guardanapo.


Balada

É noite.

De tempo em tempo na rua um semáforo abre um claro.
Pela cidade o silêncio. As vozes todas calaram.
As ruas todas rebrilham por sob os faróis do carro.

Terra sem dono. E sob os meus olhos, teu corpo claro.
Nas esquinas do teu corpo eu me desnorteio e caio.
Me embriago dos teus lábios. Paro. Me desamparo.

Mais um gole e me reparo. Sigo, cruzo incontáveis bairros:
casas de ódio e de zinco, becos de medo e de barro.
Teu nome aflora em meus lábios. Procuro louco o teu pulso

em algum lugar do dial. (Te amo. Tenho olhos
e febres e um faro infalível pro sangue mais raro.)
As ruas claras da noite eu percorro, em fogo calmo.

O meu país é a noite. As ruas claras – disparo.
Teu corpo é idêntico à noite em minha maneira de amá-lo.
Estou entre a cruz e a espada, entre línguas e cigarros.

E as tuas curvas na noite eu percorro, em fogo calmo,
assoviando allemandes para os prédios que passaram
a cento e vinte por hora pela janela do carro.


Romance

mordo a tua boca,
e a tua boca me sabe
à carnadura do dia, e a alarme.
teu ventre se move, rente: só nele cabe
o meu cáustico presente. dedos, línguas
indecentes passeando sobre a carne,
sente! dentes cravados na carne!
um deus perdido somente.

danço sob a tempestade
nosso túrbido romance. dance!
cante! cale a tarde, ou faça ruir as distantes
eras de medo e de mármore. num alarido de transes,
lances, luas, tu arde nua – nuances – pelas ruas
da cidade. dance! canse! sem alarde
neste corpo que tu invade plante um vão
de vento ou ave! este corpo, no ar da tarde,
trance ao teu, e à tempestade! eu:
só mais um deus sem chance
vagando pela cidade.


Fuga

Orquídeas no chão
cinzento da rua.
Som e fúria: furacãoOrquídeas caídas
em quase surdina.no meio da rua.
E o tempo rondandoDois corpos deitados
pelas esquinas na noite sem lua.
escuras. Pelas narinas (E o tempo rondando,
o risco e o fogo mudando a textura
– dois corpos deitadosdos nomes, das lutas.)
na noite sem lua. Fogueiras antigas
por lentas esquinas
mudas. Som e fúria:
Orquídeas rompidasfuracão, espadas
no meio da rua.impuras.
Som e fúria: furacão,
espadas sem rima.
E rondando as esquinasOrquídeas rompidas
e os céus das meninasespadas impuras.
o tempo e a morteRondando as esquinas
– lenta e segura.o tempo e a hora.
Dois corpos deitados.Lenta e segura,
Calmos, agora.A morte procura
Som e fúria: furacão,pelas esquinas.
espadas sem rimaDois corpos deitados.
– sonoras.Prontos, agora.



Variações sobre um mesmo tema

Mas vamos aos fatos.
É quinta-feira e um cargueiro
apita em meio ao fog cerrado.
É quinta-feira. Tonto, eu passo,
e os dias passam, sem assombro,
sobre o asfalto. Pelos becos, pelos bares,
há pares desamparados. Teu corpo azul
resta imerso num mar de versos
sagrados. Pelas telas, pelos trilhos,
trens noturnos assombrados reluzem na contraluz
de um ou outro poste ilhado no meio
da estrada turva – sóbrios anjos nos aguardam
depois da próxima curva: nosso destino selado.
E os carros dançando na chuva, e o sangue
à altura do peito fazendo a linha do baixo.

Mas vamos aos fatos.
é quinta-feira e um petroleiro
passa ao largo. Num copo azul
restos de tudo: ritos, fados, hieróglifos,
rostos, lutos, céus frustrados. Ao que parece
aqueles dias permanecem:
nada do chão que pisamos surge
ou ruge – ninguém será salvo.
É fim de século e nossa rota
passa ao largo. E os carros
são semifusas no pentagrama
do tráfego.

A toda pela cidade. É quinta-feira
e em minha veia corre um sangue misturado:
THC, adrenalina, e o sal calmo
dos teus lábios. A toda pela cidade.
A toda, em quatro por quatro:
os carros são semifusas – e um semáforo,
um compasso. E o teu corpo
ecoa a fúria em bancos
de carros roubados.

Mas vamos aos fatos. É quinta-feira
em minha veia e um petroleiro passa ao largo.
Pelas bocas, pelos mares, pairam gritos
de naufrágios. Trens noturnos destroçados.
Transes, truques, toques – tardos.
Pelos becos, pelos bares, pares
de pernas ao lado de copos azuis
quebrados regem as flores da culpa
nos canteiros de outros lábios. Corpos azuis
que eu amei rugem no teu,
do meu lado.
Nossos cacos sobre o asfalto.
e os carros passam na chuva
na curva
teu vulto
– a cor do teu pulso
cortado.

Moonsmile

Gato de Alice nos céus.
Dentro, o reino do centro.
E nos cabelos, vento.
Lento, deixo que a mão
descubra a noite sob os vãos
do teu vestido, as montanhas
que florescem entre a guerra
e o abrigo: uma estrada fria
sigo (o frio andando comigo).
E nos cabelos, vento.
Pelas esquinas, vento.
Vento dentro do ouvido.
E dentro do vento, soa
a canção que eu digo:
picture yourself em um barco,
em um rio, ao lado de um caminho frio,
de onde um senhor sem anel diz
do seu reino do centro
ao gato de Alice nos céus.

Galileu Galilei

Não estou para ninguém. Me deixa só
no meu canto, um caco de janela
nessa planície de escombros de onde emergem
logotipos gliterados. Não. Não e não.
O telefone vai tocar a noite inteira
porque eu simplesmente não posso:
estou soterrado sob o peso de lençóis
alvíssimos, estou deitado na extensão imensurável
dos fatos de anteontem – minha cama de jornal
eu já não faço – você sabe, eu poderia,
mas não faço – e toda a superfície das mucosas recoberta
por essa cera lisa e impermeável.

Não tenho nada a declarar. Nunca
tive nada a declarar. Sinto desapontá-los,
senhoras e senhores, mas o que eu disse antes
era mentira. Tenham paciência,
tirem esses microfones da minha cara,
devo ingressar no claustro para a reza semanal.
Estou grudado a minhas roupas e a alguns conceitos
antecipados – passo impune pela polícia, pelos vizinhos,
pelo relógio na parede – agora estou livre,
uma gravura grotesca colada num painel amarelado.

Takes

I
Com o coração a= 137 & andando de um
para outro lado. Na boca um gosto
amargo. Já sei: à noite, todos os gatos
são pardos. Tudo bem, baby,
my dark lady, a gilete não é
para os pulsos – respire fundo.
De qualquer maneira
nós já fomos mesmo expulsos
de todos os édens possíveis,
e agora é tarde: deus
morreu na viagem.

II
Com o coração a= 137 & andando
de um lado pra outro com um gosto amargo
na boca. Já sei. Havia alguém me esperando,
alguma mulher em Vigo deve estar ficando louca:
acaso vistes, ondas, acaso encontrastes meu amigo
perambulando pelas toscas tabernas destas largas
plagas pós-modernas? Mas é o dia o jornal
indubitáveis sucessões de dados. Que à noite
(se bem me lembro alguém me disse:) à noite
todos os gatos são pardos. E pelas cornijas
os saltos, mas todos os saltos são tardos.
Tudo bem, baby, agora just gimme
thy skin, thy eyes of green, deita nessa cama
de lençóis desconjuntados, tira o vestido,
abre os braços – e seja língua
pra tudo que é lado.

III
Com o coração a= 137 & ligeiramente
desafinado. Algo entre G e A,
e a certeza de que em algum lugar
além desse lençol um deus qualquer a essa hora
deve estar jogando dados. Amargo.
E pelas escadas os passos, mas todos os passos
são tardos. Tudo bem, baby, my dark lady,
agora just gimme thy eyes, thy skin
of bright. Na tua aorta ouço os sinais
destes vastos gatos pardos espreitando atrás da porta.
É fim de festa e a mesa está posta
– respire fundo. De qualquer maneira
ninguém tem mesmo a resposta,
e agora adeus: deus morreu.
Corta.

Flávia

Mas de qualquer maneira as marquises nem repararam
no sol, como não vão reparar nas bobagens
que eu escreva. O dia chegou de improviso
com um azul nunca visto – e um ouro
recém-lavado pincela as casas da esquerda.
Isso, dentro dos olhos. Fora, nada de novo
– no front, nos prédios, nas mesas.

É claro, noites em claro reclamam surpresas.
Linda! Sessenta dentes e sabe-se lá
quantas línguas naquelas horas acesas.
Tua pele às tontas percorro
como um país sem fronteiras – me perdendo
lentamente em grutas, planícies inteiras…
(Isso, atrás da janela. Fora,
nada de novo – no front,
nas ruas, nas veias).

Mas de qualquer maneira as marquises não repararam
nos corpos, não repararam nos copos, nos gostos,
nas luas cheias. Como não vão reparar nas bobagens
que tu leia. O dia chegou com outras cores: aquarela
às seis e meia. Mas hoje em dia nem o sol espanta
essas pálidas platibandas lotadas de flores
feias.

Abóbora

meia-noite
meio-jogo
fogo boiando n’água
nada
(quase nada)
que engolfa e afoga
— e emerge e afaga
e apaga...
meia-lua
quase-lua
quase nua n’água.

à flor d’água
o reflexo do branco na espuma
(uma
duas
quatro horas)
jorra
e esbate
e explode
no fogo que brinca e que bóia
— refluxo...
reflexo da lua no branco
dos olhos (em rogo)
meio-brilho
meio-jogo...
(uma
duas
quatro horas)

fora d’água
a lua cora
o fogo paira:
o vento afaga...
e apaga...
e esfuma...
(quatro horas
duas
uma)

Sexta 28

A era de k’an
os peixes do abismo.
Cismo, e não alcanço mais
que a própria sombra
na neblina. Piso,
paro, espero.
Respiro.
O amor era uma flor colorida
nascida ao acaso entre os trilhos.
Se há um caminho, não sigo.
Se há um espinho, não digo
onde esteja: dentro, fora,
na fera ou na presa.
Vou embora?
A chama dói,
e continua acesa.
Tudo o que sei
não me basta:
o amor está posto na mesa,
com todas as cartas abertas.
Ganho ou perco?
Não sei,
eu acho,
na certa.

Raízes & asas

Terra. O nosso amar
é como sementes ao vento. O lento
misturar do acaso, nosso caso,
nossas asas, nossa casa
em movimento...
E dentro do movimento
meu corpo busca o teu centro.
Terra. Teu dentro busca o meu corpo,
meu vôo não busca nada,
náufrago sem enseada,
nau à deriva no tempo.
Sento. Sente? meu coração
não tem calma, pula da cama
à calçada, abre a janela do quarto,
ressoa no apartamento. Senta,
deixa eu deitar no teu colo, vamos
falar de outras coisas: o preço
do pão, o cinema,
a nossa falta de tempo...
É, Cá, a rua invadiu o poema.
É tarde, o relógio reclama,
teu corpo largado na cama
me deixa uma saudade louca!..
Eu vou embora.
E te beijo o rosto, e visto a roupa,
com ainda o gosto dos teus lábios
todos
na boca.

Renata

Princesa esquecida, um trem de ferro
passou por cima do teu castelo.

Teu príncipe não tinha cavalo.
Veio vindo, e você não viu.

O dragão passou horas arrombando a porta.
Entrou, com olhos falsos, te protegeu do frio,
comeu tua comida, dormiu na tua cama.

O vento quis entrar,
mas tinha as janelas fechadas
tua casa.

Riscos

Não sei, a vida continua passando
mesmo sob essas tétricas lâmpadas
fluorecentes que pairam sobre mim agora.
Dentro de mim agora: não sei,
as máscaras caem e o que fica? um punhado
de cores beijos cartas por mandar melodias
sartre leminski david cooper risos rostos restos
de tudo. Não sei. Que flores horrorosas
brotariam desses corações secados
que batem quase por obrigação para
vestir sair pegar o transporte não olhar para as
pernas que porventura às duas saltem as poças
d’água numa excitação quase infantil. Não sei,
a vida continua passando mesmo que entre abril
maio junho julho agosto – as bruxas soltas gostos
gestos… digo! rostos, restos de tudo: passos, poeira,
poemas fajutos. Não sei. Há riscos no viaduto. Então
anda, bota um disco e vem pra cá, que eu já desisti
de te inventar, de criar o meu amor de novo.
É simples: todos os carros estão pegando fogo
e tu permanecerás linda por infindáveis horas
depois que eu for. És real,
ocupas um espaço definido
entre o armário e o ventilador. Tens
pelos e pernas e bocas e algumas culpas
antigas – andas, beijas e comes
independente de mim.
E és simplesmente linda assim,
uma deusa pagã na contraluz da antemanhã
de um dia qualquer de março. Não sei.
O fato é que os ossos do ofício estão
espalhados por uma área sem sombra de
dúvida bem mais vasta que a do meu quarto.
Há riscos no viaduto. Então anda, bota
um disco: há céu e um painel de absurdos
nas vidraças do edifício. A vida
continua passando.
És real, e eu não te amo.
E nem é isso
o mais difícil.




As frases: que flores horrorosas brotariam (…) e
alguém cloroformiza alguém com jasmim esta tarde
(que não está na poesia, mas é como se quase),
são na verdade de Ferreira Gullar (Requiem).
O resto é meu.
Ou como se quase.

Cerimonial dos mortos

Estaremos dentro dos portões ao amanhecer.
James Douglas Morrison


Prólogo
Outra vez pisamos
as areias brancas dessa praia,
pátria dos nossos pais.
Ouvimos as vozes ainda
como ruínas do canto.
Outra vez fincamos os pés
nesta terra clara
e miramos o mar
para a casa do sol.
Além era o destino.
Ainda é.
As velas da nave
revivem de há já
muitos anos por sob
os escombros, um casco feroz
se desprende do tempo
e ecoa em lembranças
no sal dessa tarde.
Tróia pousa atrás do longe.
A nós só foi dado lembrar.
Nessas madeiras partidas,
levemente calcinadas
aqui perto da proa
e em alguns pontos
do bordo direito,
aqui, nessas cicatrizes,
passamos quase toda
nossa infância desatada.
Esse convés destroçado
como salão de brinquedos.
Essas escotas puídas
como canção de ninar.

Canto I
O rangir do cordame
se espraia no ar ligeiramente
frio da antemanhã.
Dentro em pouco,
antes do sol,
as águas chegarão
à marca e elevarão
o barco do fundo lodoso.
Dentro em pouco,
antes do sol,
nós partiremos.
Nada deixamos em terra.
Não temos família
ou herança. Para leste,
a todo pano! Queremos
presenciar o nascimento
do sol, o reino
de onde ele irrompe
abrindo cores na madrugada.

Canto II
Oh, as danças massacradas
da tormenta!
Tantas noites ao mar,
e à tempestade!
Na fúria desse vento,
feitas fogo, voavam
nossas asas fustigadas.
As velas todas tesas
– ventania –
os corpos como flechas
assestadas.
As ondas revolvidas
golpeando o casco duro
com furor obstinado.
Oh, as danças
massacradas! Tempestade!
Na rota
oposta ao sol a travessia
do mar que nos impede o paraíso.
A cara ao sal e o grito à ventania!

Canto III
De repente
a linha baixa
de uma costa
se estende norte-sul
nos nossos olhos.
O planalto à nossa frente
é liso e imóvel.
A extensão é quase
intolerável. A cidade.
A cidade se esbarra
contra o céu como uma gravura
súbita esquecida na paisagem.

Canto IV
Soa a grande hora
por todos os olhos tesos
alinhados na enseada.
Daqui às muralhas imensas
um terreno plano e limpo
engolirá nossos passos.
Dos altos portões da cidade
vêm marchando fileiras pesadas;
brilhando
na contraluz dos séculos
um pelotão de armaduras
já gastas.
Montam guarda nas muralhas
da cidade abandonada.
Tróia. Esse nome
é nossa casa.

Canto V
Insistimos nesse ponto,
senhores jurados:
nós temos direito ao paraíso.
Não reconhecemos a autoridade
desta Corte. Aliás,
não reconhecemos autoridade
nenhuma. Só sei
que estamos correndo
é por nossas próprias vidas,
em cada fibra percutindo
o ódio
ao desamor destas paredes
ridículas.
Nos arrogamos o direito
de rebentar essas pedras,
esses céus de clorofórmio
e borboletas paralíticas.
Para frente: viemos
presenciar o nascimento
do sol, viemos reaver
nossa princesa raptada.

Canto VI
Este é o canto
do herói mutilado.
O canto da guerra
e dos rumos perdidos.

Uma vegetação confusa
se estende no planalto:
os corpos sem dedos
como a botar raízes.

Fomos gerados
no ventre do espaço
– estrelas e vozes
num mar irrestrito.

Agora jazemos
sob as mantas dos soldados.
As muralhas intocadas
devolvendo nossos gritos.

O último eco se cala.
As bocas de boca pra baixo.
Sopra sobre os mortos
um duro vento de vidro.

A areia apagou
nossos rostos e passos.
Cai a grande noite
sobre um velório de olhos aturdidos.

Noturno

O último blues do disco em nossa dança
abstrata: rodando num fim de festa
com pétalas, ventos, cores partidas, fogueiras
intermináveis nas bocas entrelaçadas.
As roupas no chão da sala.
A chuva pra além da porta.
E nossas rotas cruzadas nessas velhas almofadas.
Visões, raios, águas loucas:
Lua – cheia – no céu da minha boca.
Síntese de luz
que explode nas acácias.
Um descompasso de marfim enegrecido.
Um longo espasmo súbito no interlúdio das galáxias.

Fala sério

Acabou a brincadeira.
Uma história assim sem eira nem beira
só podia dar nisso: um riso
bem gostoso – mas sem compromisso.
E agora o que é que eu faço
com o amor livre, a rima rica,
os discos, tudo! – Pois sim.
Tinha mesmo que acabar assim.
E agora os noturnos de Chopin
ficam rodando até a morte
na vitrola da agonia.
Mil vezes vou e volto.
Espero. Noite sem sorte
(e a noite invade o dia).
Mas deixa pra lá.
Eu rasgo tudo quando tu voltar.
Te dou um beijo, preparo um trago,
pinto as paredes da sala de estar
e esqueço tudo em dois minutos.

Em três minutos, no mais tardar.

Os alegres inimigos de deus

I
Quantos? Não sei. Um estalar de desejos
escuros delirantes que vem descendo
de distâncias incontidas, bem longe desses
rostos de enxofre, bem longe desses trajes
bem-passados que se servem em bandejas
e garrafas sucessivas: vocês que costumam
usar barbas e relógios, vocês
que costumam postergar vaga-lumes e sempre
cumpriram com seu dever conjugal e preencheram
os papéis que lhes foram enviados, vocês
que sempre fugiram da cor das maçãs e
trazem nas bocas um gosto a caveiras
conformadas, o melhor é que
comecem a tirar das gavetas empoeiradas
seus missais de domingo, assumidos por herança
e subscritos cada dia, sobre bandeiras
e detonações. O melhor
é que estejam bem preparados:
que comprem luvas para as esmolas,
violinos para os jantares,
armaduras para as ofensas – um estalar
de desejos proibidos vem descendo
desde terras altas, insondáveis.
Fortes e altivos como gigantes de outras eras.

II
Com lentos frutos
devorados, com lentos
pássaros perdidos,

com surdos gemidos
molhados, com verdes
cantigas de terra,

com chuvas, com suor,
com veias – a lenta
cópula da terra,

com mar, com ressaca,
com braços – um eito
roubado aos destroços,

em meio à alvorada sangrenta,
em meio a velhos
ventos sepultados.

III
Somos aqueles que têm raízes aladas.
Somos de novo os cavalos selvagens.
Temos nomes, olhos, histórias nossas,
longe desta cruz estúpida vivemos.

É a cidade, e o dia em seu transcurso
– a noite nos oferta outras águas espargidas,
e o alumbramento das festas agora dura para sempre.

Amiúde perto do mar nos amamos e estamos plenos:
de ponta a ponta ao corpo um raio se nos trança.
Raízes com asas. Temos fome.
Somos mais que um número nas proclamas.

Mas chegam cemitérios, paletós, comensais, meirinhos,
"chegam frades bendizendo pelo céu a matar meninos",
chega o dia com seus extensos regimentos fósseis
– os homens, com suas roupas de aluguel barato, desfilam.

Cemitérios. Tumbas de mortos vespertinos.
E pelo meio formosas flores inúteis
desaguando em oceanos de suas comédias trágicas.

Percorremos o dia com suas culpas e mal-me-queres.
A lenta morte em que nascemos. Temos fome.

Por isso galopamos sem ferraduras ou rédeas.
Sem herança seguimos. Estamos vivos.
Já disse: fizemos voar nossas raízes
– cantamos alto para espantar os malefícios.