Cerimonial dos mortos

Estaremos dentro dos portões ao amanhecer.
James Douglas Morrison


Prólogo
Outra vez pisamos
as areias brancas dessa praia,
pátria dos nossos pais.
Ouvimos as vozes ainda
como ruínas do canto.
Outra vez fincamos os pés
nesta terra clara
e miramos o mar
para a casa do sol.
Além era o destino.
Ainda é.
As velas da nave
revivem de há já
muitos anos por sob
os escombros, um casco feroz
se desprende do tempo
e ecoa em lembranças
no sal dessa tarde.
Tróia pousa atrás do longe.
A nós só foi dado lembrar.
Nessas madeiras partidas,
levemente calcinadas
aqui perto da proa
e em alguns pontos
do bordo direito,
aqui, nessas cicatrizes,
passamos quase toda
nossa infância desatada.
Esse convés destroçado
como salão de brinquedos.
Essas escotas puídas
como canção de ninar.

Canto I
O rangir do cordame
se espraia no ar ligeiramente
frio da antemanhã.
Dentro em pouco,
antes do sol,
as águas chegarão
à marca e elevarão
o barco do fundo lodoso.
Dentro em pouco,
antes do sol,
nós partiremos.
Nada deixamos em terra.
Não temos família
ou herança. Para leste,
a todo pano! Queremos
presenciar o nascimento
do sol, o reino
de onde ele irrompe
abrindo cores na madrugada.

Canto II
Oh, as danças massacradas
da tormenta!
Tantas noites ao mar,
e à tempestade!
Na fúria desse vento,
feitas fogo, voavam
nossas asas fustigadas.
As velas todas tesas
– ventania –
os corpos como flechas
assestadas.
As ondas revolvidas
golpeando o casco duro
com furor obstinado.
Oh, as danças
massacradas! Tempestade!
Na rota
oposta ao sol a travessia
do mar que nos impede o paraíso.
A cara ao sal e o grito à ventania!

Canto III
De repente
a linha baixa
de uma costa
se estende norte-sul
nos nossos olhos.
O planalto à nossa frente
é liso e imóvel.
A extensão é quase
intolerável. A cidade.
A cidade se esbarra
contra o céu como uma gravura
súbita esquecida na paisagem.

Canto IV
Soa a grande hora
por todos os olhos tesos
alinhados na enseada.
Daqui às muralhas imensas
um terreno plano e limpo
engolirá nossos passos.
Dos altos portões da cidade
vêm marchando fileiras pesadas;
brilhando
na contraluz dos séculos
um pelotão de armaduras
já gastas.
Montam guarda nas muralhas
da cidade abandonada.
Tróia. Esse nome
é nossa casa.

Canto V
Insistimos nesse ponto,
senhores jurados:
nós temos direito ao paraíso.
Não reconhecemos a autoridade
desta Corte. Aliás,
não reconhecemos autoridade
nenhuma. Só sei
que estamos correndo
é por nossas próprias vidas,
em cada fibra percutindo
o ódio
ao desamor destas paredes
ridículas.
Nos arrogamos o direito
de rebentar essas pedras,
esses céus de clorofórmio
e borboletas paralíticas.
Para frente: viemos
presenciar o nascimento
do sol, viemos reaver
nossa princesa raptada.

Canto VI
Este é o canto
do herói mutilado.
O canto da guerra
e dos rumos perdidos.

Uma vegetação confusa
se estende no planalto:
os corpos sem dedos
como a botar raízes.

Fomos gerados
no ventre do espaço
– estrelas e vozes
num mar irrestrito.

Agora jazemos
sob as mantas dos soldados.
As muralhas intocadas
devolvendo nossos gritos.

O último eco se cala.
As bocas de boca pra baixo.
Sopra sobre os mortos
um duro vento de vidro.

A areia apagou
nossos rostos e passos.
Cai a grande noite
sobre um velório de olhos aturdidos.

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