Enuma elish

Quando, no alto, eles ouviram
o grito da cidade, que corria
enquanto o sol lentamente
ia sumindo por detrás dos edifícios,
quando ouviram a voz do metal
entre as buzinas, os faróis, os carros,
os tambores aprisionados na carne
daqueles que não os supunham
(e nem poderiam supô-los, ocultos
como estavam entre sombras e folhagens),
seus olhos tornaram-se em espelhos
por onde o ruído insuportável
deste mundo refletia. E ele lhe mostrou
a dor, e talvez naquele momento
a tenha amado, ou apenas percebido
o quanto a havia amado
desde a primeira vez que ela
atravessara o seu caminho
com questões, com fúria, com cachos em fogo
e um certo jeito de pender a cabeça
e levantar as sobrancelhas, e bem
cuidadosamente ir desmontando, peça
por peça, as defesas que ele tinha erguido.
Como no momento em que ela havia dito:
– Então me beija! – e ele a beijara, embora
já soubesse desde então que aquele beijo
não resolvia nada: o mundo seguia
sua rota indiferente ao desafio.
Mas talvez fosse essa a beleza exata
daquele gesto perdido em meio às mesas
de algum bar que não mudara – ou talvez, sim,
mudara (sem mudar) no instante preciso
em que o gosto de tudo o que ela dizia
impregnou cada pequena parte dele.
E então, por algum motivo, rompeu-se:
o frágil encantamento que os havia
de tal maneira envolvido que ele não
sabia mais se tinham sido uma obra sua
as conjuras que o fizeram, ou, ao contrário,
as palavras que ela tinha dito a ele
é que haviam-no forjado novamente
naquele ser que olhava, e desejava, e ardia.
E desde então eles fingiram que este mundo
ainda era o mesmo mundo que existia
antes que eles se beijassem e se olhassem
bem dentro nos olhos um do outro, e vissem
insondáveis e diversos mundos, plenos
do gosto que lhes ficou na boca – fundo,
muito fundo, mais fundo
que o silêncio que se pede ao mundo
– o profundo silêncio
que se pede ao mundo,
a cada novo dia.

Um comentário:

Isa disse...

Sinto uma dor-macia como se tivesse vivido cada palavra dita... mas que tudo já ficou no tempo.
Muito bonito.